domingo, 27 de fevereiro de 2011

Namore uma garota que não lê..

Namore uma garota que não lê.. Encontre-a em um bar miserável.. Encontre-a na esfumaçada e, com cheiro de suor e cerveja, luz multicolorida de uma boate de luxo.. Aonde for que você a encontre, encontre-a sorrindo. Tenha certeza que demore até que as pessoas que estejam falando com ela olhem para outro lado. Aproxime-se dela com trivialidades não sentimentais. Use cantadas e ria introspectivamente. Leve-a para fora quando a noite estiver acabando. Ignore o peso palpável da fatiga. Beije-a na chuva sob o fraco brilho de uma luminária porque você viu isso funcionar em um filme. Relembre dessa falta de significado. Leva-a para o seu apartamento. Termine fazendo amor. Foda-a.

Deixe que o ansioso contrato que você escreveu sem ter notado evolua lenta e confortavelmente em um relacionamento. Encontre interesses em comum, como sushi e música. Construa um bastião de segurança impenetrável com base nisso. Torne-o sagrado. Volte a ele toda vez que o ar ficar parado, ou que as madrugadas ficarem longas. Converse sobre nada de significativo. Pense pouco. Deixe que os meses passem sem aviso. Convide-a para morar com você. Deixe que ela decore. Brigue sobre coisas inconseqüentes como porque a Cortina do banheiro deve ficar fechada para que não crie mofo. Deixe um ano passar sem prestar atenção. Comece a prestar atenção.

Descubra que você provavelmente se casará com ela porque senão terá gasto um bom tempo em vão. Leve-a para jantar no restaurante do quadragésimo andar de um prédio, bem além das suas condições financeiras. Tenha certeza que é possível ter uma bela vista da cidade de lá. Timidamente peça para o garçom trazer uma garrafa de champagne e traga junto um anel. Quando ela se der conta, peça-a em casamento com todo o entusiasmo e sinceridade que você conseguir. Não se preocupe demais se você sentir que seu coração saltará por uma fina janela de vidro. Por conseqüência, também não se preocupe demais se você não sentir nada. Se existir felicidade, deixe-a estagnar. Se ela chorar, sorria como se você não tivesse sido mais feliz antes. Se ela não chorar, sorria do mesmo modo.

Deixe que os anos passem. Consiga uma carreira, não um emprego. Compre uma casa. Tenha duas crianças maravilhosas. Tente criá-las bem. Falhe, freqüentemente. Caia numa indiferença cansativa. Caia numa tristeza indiferente. Tenha uma crise de meia-idade. Fique velho. Maravilhe-se com sua falta de conquistas. Sinta-se, às vezes, contente, mas na maioria das vezes vazio e etéreo. Sinta, durante caminhadas, como se você fosse nunca mais retornar, ou como se você pudesse ser levado pelo vento. Contraia uma doença terminal. Morra, mas somente após ter visto que a garota que não lia fez seu coração oscilar com alguma paixão significante, que ninguém vai escrever a história das suas vidas, e que ela morrerá, também, com apenas um leve e temperado remorso que nada veio da capacidade dela em amar.

Faça essas coisas, pelo amor de deus, porque nada é pior do que uma garota que lê. Faça isso, eu digo, porque a vida no purgatório é melhor do que a vida no inferno. Faça isso, porque uma garota que lê possui um vocabulário que pode descrever aquele descontentamento amorfo como uma vida não preenchida – um vocabulário que analisa a beleza inata do mundo e faz ela se transformar numa necessidade acessível ao invés de uma maravilha alienígena. Uma garota que lê reivindica ao vocabulário que diferencie entre a ilusória e desalmada retórica de alguém que não pode amá-la, e o desespero inarticulado de alguém que a ama demais. Um vocabulário, pelo amor de deus, que faz de meus sofismas vazios um simples truque.

Faça isso, porque uma garota que lê entende a sintaxe.  A literatura ensinou-a que os momentos de ternura vêm em intervalos esporádicos, porém conhecíveis. Uma garota que lê sabe que a vida não é plana; ela sabe, e demanda com direito, que a decadência venha junto com um fluxo de desapontamento. Uma garota que leu, consegue com seus sentidos sintáticos sentir pausas irregulares – a hesitação da respiração – endemicamente a uma mentira. Uma garota que lê percebe a diferença entre um momento intercalado de raiva e os hábitos entrincheirados de alguém cujo cinismo amargo vai continuar, e continuar passando qualquer ponto de racionalidade, ou propósito, continuando mesmo depois que ela fez suas malas e deu um relutante adeus e depois que ela decidiu que você é uma elipse e não um ponto e irá continuar e continuar. Sintaxe que conhece o ritmo e a cadência de uma vida bem vivida.
Namore com uma garota que não lê, porque a garota que lê sabe a importância da trama. Ela pode traçar as demarcações de um prólogo com cristas afiadas de um clímax. Ela consegue sentir na pele. A garota que lê será paciente com uma intromissão e agilizará um desfecho. Mas de todas as coisas, a garota que lê conhece mais o significado inevitável do fim. Ela é confortável com isso. Ela terá de dizer adeus para uma centena de heróis apenas com uma pontada de tristeza.

Não namore com uma garota que lê, porque elas são quem contam as histórias. Você com a Joyce, você com o Nabokov, você com o Woolf. Você está na biblioteca, na plataforma do metrô, no canto do café, na janela de sua casa. Você, que faz minha vida tão difícil. A garota que lê já fez o balanço da vida dela e está cheia de significado. Ela insiste que as narrativas sejam ricas, seu elenco de apoio seja colorido e que sua vida seja vivida em negrito. Você, a garota que lê, me faz querer ser tudo o que não sou. Mas eu sou fraco e irei desapontá-la, porque você sonhou, propriamente, com alguém que é melhor do que eu. Você não irá aceitar a vida que eu contei no começo desse texto.

Você não vai aceitar nada menos que paixão e perfeição, e uma vida digna de ser recordada. Então, vá embora garota que lê. Pegue o próximo avião para o sul e leve tudo com você!!. Eu te odeio. Eu realmente, realmente mesmo, realmente mesmo te odeio..
(desconheço  o autor)

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